Modelo em gesso para o busto de Frei Manuel do Cenáculo.Nessa inventariação de mais de três centenas de peças incluem-se, além da pintura, desenhos e estampas emolduradas, e apenas essas, que se expunham na Livraria e Museu e ornamentavam as salas do Paço. É todo este conjunto que está na origem do núcleo principal do Museu Regional de Évora, criado em 1915, por decreto governamental.

Nascido em Lisboa, em 1 de Março de 1724, aos dezasseis anos professa na Ordem Terceira de São Francisco, no Convento de Jesus, e em Outubro desse mesmo ano, 1740, é enviado para Coimbra a cursar Humanidades no colégio franciscano de São Pedro, onde fez a sua formação filosófica e teológica com tal aproveitamento que, aos 22 anos, é nomeado Lente de Artes. No ano do jubileu de 1750, é escolhido para acompanhar à Roma, ao Capítulo Geral da Ordem Franciscana, o seu mestre Frei Joaquim de São José, então Provincial. Da viagem, de cerca de um ano, existe um Diário manuscrito, onde é patente o entusiasmo, a grande vontade de ver, de colher informações ao longo de todo o percurso, e que terá despoletado decisivamente o seu gosto de coleccionar.

Nas cidades e conventos que visitam dedicam especial atenção às bibliotecas, monetários e gabinetes de raridades. Em Bolonha, no 65º dia de viagem, o Diário anota:
“…de tarde fomos ver a Specula, Instituto de Bolonha, (...) e confesso ser uma das couzas mais notáveis, que tenho visto nesta jornada de tão diversos países (...). O Instituto é um claustro quadrado, que se compõe de muitas casas, nas quais estão distintamente as pertencentes a cada uma das Artes, Ciências. Uma ou duas casas do que pertence a Arte Militar, e aos Engenheiros que a professam; (…) 2, ou 3 salas do que pertence a Anatómica com variedade de corpos humanos, e monstros: tem toda a sorte de animais voláteis, aquáticos, terrenos, e serpentes. Uma ou mais salas do que pertence à Numismática; muitas da Matemática, com quanto se pode desejar; muitas da Cirúrgica; da Pintura; da Náutica: enfim hum compendio do mundo todo, e todos seus inventos, e maquinas» (Biblioteca Pública de Évora, CV/1-10, d).

 

Um “compêndio de todo o mundo” é bem a frase chave de toda uma concepção universalista e pedagógica que estará na base da acção de Cenáculo como coleccionador, perfeitamente enquadrada no novo espírito das luzes.

  

Artur Goulart de Melo Borges

BIBLIOGRAFIA


BRIGOLA (2000), João Carlos, “Coleccionismo e “anticomania” - a actividade museológica de Frei Manuel do Cenáculo (1750-1814)” in A Cidade de Évora, II Série, n.º 4, pp.249-263. Évora: Câmara Municipal de Évora.

 

GOULART (2000), Artur, “D. Frei Manuel do Cenáculo, coleccionador” in catálogo da exposição Vieira Lusitano 1699.1783. O Desenho. Lisboa Instituto Português de Museus.

MACHADO (1987), José Alberto Gomes, Um coleccionador português do século das luzes: D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas-Boas, Arcebispo de Évora. Évora: Publicações Ciência e Vida Lda.